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Qual o papel do pai? O que tem mudado?

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 Historicamente, sempre vimos o papel do pai atrelado ao de provedor do lar. Quase como uma regra absoluta, coube ao homem a saída em busca do sustento da familia, enquanto à mulher ficou incumbido o papel de alicerce emocional e de cuidados com as crianças e a casa. Gerações e gerações tornaram o papel do homem e da mulher extremamente dicotômicos, como se fosse impossível flexibilizá-los ou (con)fundi-los. Ao longo dos séculos, a tradição e os costumes trataram de arraigar em nossos pensamentos mais genuínos que ao homem/pai não cabia o vínculo afetivo e de cuidados com seus filhos, ao contrário, por muito tempo acreditou-se que o distanciamento emocional do homem era a chave para familias bem sucedidas. O século XX foi responsável pela primeira mudança nesse cenário egocêntrico masculino, já que permitiu a entrada da mulher no mercado de trabalho, balançando a estrutura dita consolidada dos modelos familiares. As mulheres passaram a buscar por direitos iguais, bem como passaram a pensar mais fora da caixa ao se permitirem sonhar com uma felicidade diferente daquela atrelada ao pacote casamento e filhos. A partir desse momento então, é que se torna possível o faiscar de uma nova realidade para as familias. Quando li há mais de 2 anos o meu livro de cabeceira A maternidade e o encontro com a própria sombra da argentina Laura Gutman, um capítulo em particular me chamou muito a atenção por definir "o papel do pai como esteio emocional". É engraçado como ela traz a necessidade de um homem extremamente sensível para possibilitar o apoio que a mulher puérpera precisa. Até pouco tempo atrás imaginar esse nível de sensibilidade em um homem era quase uma obra de Salvador Dali. Hoje, sinto e vejo todos os dias um movimento lindo de pais que querem ser muito mais do que simples provedores. Vejo pais que querem ser ativos e parceiros de suas esposas/companheiras. Ainda não é o ideal mas aplaudo as mudanças existentes. Mais que um simples trocar de fraldas e botar para arrotar, vejo pais engajados e que paternam lado a lado da mãe. Pais que entram em rodas de discussão sobre alimentação saudável, sobre sling, cama compartilhada, métodos montessorianos e afins, universo antes pertencente à mãe, muitas vezes incompreendida e taxada de monotemática e louca por tentar ser a melhor mãe possível. Eu vi essa mudança diante dos meus olhos e dentro da minha casa, pois quando olho meu marido hoje, vejo um homem que entendeu o paternar e que escolheu compartilhar e não apenas ver de longe a criação de nosso primogênito. Eu não disse isso a ele, mas possivelmente foi um dos motivos que me fez querer uma segunda viagem maternal. Por um tempo, a primeira viagem foi solitária e foram necessárias muitas leituras em voz alta, muitos monólogos sobre criação de filhos para que a mudança viesse. Eu sabia que seria mais fácil seguir o fluxo e ser como muitas familias são: partidas ao meio, dicotomizadas. Mas eu nunca me contentei fácil com o que é comum e fui atrás de transformar a realidade bipartida em realidade triangular: PAI, MÃE, FILHO. E para terminar, deixo um parágrafo das palavras de Laura:
"Devemos procurar oferecer o melhor de nós mesmos à pessoa amada, em vez de gerar expectativas em torno do que o outro me oferece. Embarcar em um projeto familiar requer o máximo de generosidade e a convicção de que é necessário construir uma cadeia de apoios para possibilitar a criação dos filhos. Este conjunto de virtudes que acionar o melhor de cada um se chama familia."


9 comentários:

  1. E como a generosidade é importante, né? Eu fui criada numa família extremamente conservadora e machista. Meu pai sempre foi muito distante emocinalmente de mim e das minhas 3 irmãs. Sair de casa pra fazer faculdade em outra cidade foi algo extremamente positivo na minha vida. Abriu meus olhos para o mundo. Comecei a ver que existem outras possibilidades. Hoje sou casada com um americano, e aqui, por mais que as mulheres ainda ganhem salários menores que os homens, a realidade é bem melhor para nós do que é no Brasil. Aqui todos os nossos amigos homens que são pais criam seus filhos ativamente. A grande maioria dos restaurantes que frequentamos tem trocador no banheiro masculino. E quando temos que trocar a fralda da Liana fora de casa, geralmente é meu marido que troca. É engraçado que vendo isso durante a sua estadia aqui conosco quando a Liana era recem nascida, a minha mãe achou isso bem diferente, foi uma surpresa pra ela.
    Myriam, eu estava pensando em voce mais cedo, se você já está com bebezinho novo. Espero que você tenha uma boa hora! Um lindo parto! Fico na expectativa aqui.
    Beijos, Rita :)

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    1. Rita, não importa quantas vezes eu visite a terra do tio Sam, eu nunca me canso de admirar o quanto os pais aí são engajados e ativos! Espero um dia ver isso aqui também!!!
      Estou com 35 semanas! Obrigada pelo carinho!!! Mil beijos

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  2. Oi Myrian, que blog lindo! Por que não o vi antes?
    Se essa sociedade machista soubesse o quão importante esse mergulho de cabeça na criação de filhos.
    Quando você diz sobre sua jornada solitária, eu entendo e solidarizo porque meu marido também ainda titubeia pelo o que ele aprendeu e o que ele quer ser, falta a referência. Sinto que muitas vezes precisamos conversar sobre mais do mesmo por muitas vezes. Mas, acho que este é o caminho, construindo o novo.
    E Laura Gutman é divina! rs
    beijos

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    1. Oi, Lis! Seja muito bem-vinda!!! Espero que volte mais vezes pra gente trocar figurinhas...rsrsrsrsrs
      Bjinhos!

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  3. Myriam, tenho o mesmo pensamento quando observo o papel dos pais atualmente. Que bom que vc e seu marido estão em sintonia nos seus papéis. Por aqui, também posso dizer e sentir o mesmo. Claro que nem tudo é perfeito, mas sinto uma gratidão por isso e penso que podemos melhorar mais ainda.
    Não sei se é correto eu pensar assim, mas creio que, na maioria das vezes,cabe a nós, (mulheres/esposas/mães) construir ou aprimorar essa vivência paterna para que aflore de maneira saudável e, assim, haja parceria na criação e educação dos filhos. Não é algo simples e fácil, mas creio que é um dos caminhos.
    Bjos,
    Larissa Andrade.

    http://maternidadeecotidiano.blogspot.com.br/

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    1. Concordo! Muitas vezes a gente no afã de fazer tudo do nosso jeito, não permite que o pai participe! E isso eu aprendi! Mesmo que meu marido faça de um jeito que eu não faria, deixo! Eu não consigo dar conta de tudo sozinha, então a participação dele é fundamental!

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  4. Ótimo texto, Myriam!
    essa mudança também é visível aqui dentro da minha casa. Ainda falta muito caminho para chegarmos num equilíbrio, mas é notável (pelo menos pelas redes sociais) o grande número de pais que querem e fazem questão de participar de todos os momentos, deixando de lado apenas aquela "ajudinha" de ficar com a criança para que a mãe tome um banho.

    Bjos!

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    1. Que bom que essa mudança é vista por aí também! Novos tempos virão!! Bjsss

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